Marvel x Diversidade
Preloader

O problema com diversidade da Marvel é mais complicada do que parece.

“Marvel, a gigante dos quadrinhos, conhecida por trazer tantos heróis icônicos à vida, ainda está tentando descobrir como não parecer a vilã.”

A frase é de Alex Abad-Santos, um dos escritores do site Vox.

Apesar de um tanto quanto dramática, se levadas em consideração as últimas polêmicas com a editora, a frase não poderia ser mais verdadeira.

Em menos de uma semana, a Marvel se envolveu em diversas polêmicas envolvendo seus quadrinhos com diversidade.

É difícil acreditar que a mesma editora que criou os X-Men, ícones da diversidade de gênero, etnia, sexual e mais um tanto de outras, esteja lutando tanto para conseguir se manter longe das polêmicas com as minorias nos últimos tempos.

Parece que o departamento de marketing tem tido que trabalhar mais para liberar comunicados para amenizar o impacto das palavras ou ações dos seus funcionários e tentar algum tipo de “controle de dano”, do que para criar novas estratégias de venda e aumentar os números da editora.

Semana passada, em entrevista ao ICv2, o vice-presidente da editora, David Gabriel, acabou falando demais. Vamos deixar claro, ser verdade, não significa estar certo. E em questões de marketing, muito menos que deva ser dito. Mas parece que o VP da Marvel faltou ao marketing 101 e falou o que não devia de forma deselegante e inadvertida. Ao ser questionado sobre os números de vendas da editora ele falou, ao que parece, sem pensar:

“As pessoas não querem mais diversidade… não querem personagens mulheres.”

Pronto! Foi o suficiente para sites mais rápidos que o Relâmpago Marquinhos começarem a apontar a falha de Gabriel e começarem os ataques contra a editora. Agora vamos lá, vamos contextualizar o que realmente foi dito por Gabriel.

David Gabriel, junto a alguns diretores e responsáveis pela análise de vendas da Marvel fizeram uma reunião com os distribuidores do mercado varejista e questionaram sobre os números de venda da empresa. Apesar de em março ter garantido mais uma vez nas vendas gerais, atingindo um percentual de vendas exatamente 6,66% (HA!) maior que o da DC no geral junto aos distribuidores, mas vendas para o comércio varejo a diferença foi de 1,12% para a DC. O que parece pouco, na verdade reflete a habilidade da DC em manter suas histórias renovadas e atrativas. Porém, os números de venda tanto da Marvel quanto da DC contém uma pegadinha. Mas antes, vamos voltar ao que interessa.

Quando questionou o motivo da queda nas vendas de suas revistas, Gabriel ouviu as seguintes afirmações:

“Não quero que façam essas coisas. Quero que vocês entretenham. É esse o trabalho de vocês. Um dos meus clientes até chegou para mim e disse que não se importava com a mensagem, que ele quer é receber novas estórias, mas que não estava nem um pouco interessado nessas coisas (histórias com diversidade) martelando o tempo inteiro.”

Um dos atacadistas foi ainda mais taxativo:

“Quando se fala do Oscar e em como isso (inclusão e diversidade) se tornou o tópico principal, eu olho para realidade dura e fria. Estou no ramo de vendas. Muitos desses filmes, ou outras coisas em outras mídias, não vendem. Para mim, só me importo se vou ou não fazer dinheiro com isso. Se vou vender.”

Claro que houve os que foram contra essa ideia e o editor chefe da Marvel, Axel Alonso, ainda ressaltou a beleza da diversidade e em como personagens como Miles Morales e Ms. Marvel de Kamala Kahn vêm vendendo bem, de como essa diversidade era necessária. Entretanto o dano maior já estava feito, tudo o que as declarações de David Gabriel fizeram foram ressaltar a ideia desses distribuidores e criar no público a sensação de que a editora estava desistindo dos seus quadrinhos de diversidade.

Mas tudo bem, vamos entender melhor o porquê das palavras de Gabriel. Para o mercado dos quadrinhos americanos, a opinião dos distribuidores atacadistas é muito importante, já que são eles quem fazem a conexão entre as editoras e as pequenas lojas de quadrinhos. Um detalhe importante é que, mesmo com as plataformas e vendas digitais, a forma impressa das revistas ainda é a mais popular. No entanto, um atacadista que compre e revenda uma quantidade x de revistas não aceita devolução e reembolso daquilo que não foi vendido, sendo assim algumas pequenas lojas desistem de comprar as revistas com menor saída em suas localidades por medo de ficar com elas “encalhadas” e acabarem perdendo dinheiro. Ou seja, pequenas lojas não encomendam, atacadistas não compram e não distribuem. Entendem a linha de raciocínio de Gabriel? Não é que ele ache que as revistas com diversidade sejam ruins ou que devam ser extintas, ele apenas se baseou em números para dizer que elas não vendem como se gostaria. E, em um conceito geral, essa é a verdade.

O mercado de quadrinhos norte-americano ainda funciona de maneira engessada, as editoras ainda dependem demais desses atacadistas que distribuem suas revistas e as pequenas lojas sofrem com a era digital e com o fato de não terem espaço o suficiente para grandes estoques. Sendo assim, acabam comprando sempre as histórias clássicas, pois são mais fáceis de vender. Simples assim.

No entanto, a questão é regional, existem regiões onde as HQs com diversidade são melhores aceitas que outras. Para quem conhece um pouco do mercado americano isso se explica facilmente, o país vive um momento politicamente conflituoso no que diz respeito às minorias desde que Donald Trump assumiu a presidência. Estados como Geórgia e Texas, por exemplo, onde há um certo senso de supremacia branca (sim, infelizmente isso ainda existe e cada vez com mais força por lá) e uma aversão às minorias negras e muçulmanas, personagens como Miles Morales e Ms. Marvel não são muito populares. Porém, em um cenário como a Califórnia ou Nova Iorque, onde há uma diversidade étnica e religiosa muito grande, é mais fácil crianças, adolescentes e até mesmo adultos se sentirem relacionados as histórias contadas.

Em outra parte de sua entrevista, Gabriel cita o fato das revistas com os heróis tradicionais venderem sempre muito bem, o que acaba criando um ciclo vicioso dentro da editora. Obviamente a Marvel liberou um comunicado explicando que essa não era a visão da editora e que os personagens de diversidade não irão a lugar nenhum que a Poderosa Thor, Spider-Gwen, bem como a Ms. Marvel, Garota Esquilo e Miles Morales têm vendido bem e que trazem muita satisfação para a área criativa da empresa, que não irão a lugar nenhum. Apenas uma forma de amenizar os ânimos, mesmo o estrago tendo sido feito.

Voltando aos dados de vendas de março, a revista mais vendida do mês foi O Espetacular Homem-Aranha #25 e Batman #18. E eis aí que surge o grande problema. Tanto Marvel quanto a DC se mantém no topo das vendas com personagens clássicos e que não trazem nada de “novo”, mesmo que suas histórias sejam constantemente renovadas e reiniciadas, ainda são os mesmos personagens de sempre.

Segundo as redes sociais e outros números de venda muito mais difíceis de se calcular, por não serem os oficiais com os atacadistas, as revistas com diversidade, seja de gênero, religião ou etnia vêm vendendo muito bem e deixando o público extremamente satisfeito, tendo um feedback muito positivo. Então, por que não vendem ainda mais? Esses são dados difíceis de precisar, mas é possível que a era digital, onde o compartilhamento ilegal é tão comum, seja um dos responsáveis por isso. Entretanto, o que realmente acho é que falta investimento das editoras. É muito fácil estabelecer um alto índice de vendas com o Homem-Aranha de Peter Parker, ou com o Batman. Difícil é introduzir uma personagem nova, com roupagem e temática completamente novos e esperar que o público compre por simplesmente ser da editora. Não é assim que funciona, nem deveria, para ser sincera. As editoras deveriam investir mais em divulgar seus personagens de diversidade, atrair o público. Seja ele parte desse novo mundo de diversidade que elas querem inserir ou não. Com a introdução certa, na edição exata, com divulgação e com esforço das editoras, esses personagens podem ganhar mais espaço. Nem que seja buscando isso em outras mídias. Apesar de bem conhecidos pelo público dos quadrinhos, desde o lançamento das séries da Netflix as revistas relacionadas aos personagens das séries vêm crescendo nas vendas. Vide o fato de Punho de Ferro #1 ter ficado em 5º lugar das mais vendidas de março, mesmo mês que a série estreou na plataforma de streaming.

Não há uma fórmula mágica para fazer com que as pessoas gostem e comprem quadrinhos de diversidade, porém é inegável que esses, e quaisquer outros, devem ter muita qualidade tanto na ilustração quanto na narrativa. Mas se houvesse um maior apoio e uma maior divulgação por parte da editora, as vendas seriam ainda melhores.

O que nos resta agora é aguardar quais os próximos passos da Marvel e torcer para que as excelentes HQs com diversidade não sumam simplesmente.

 

Revisado por: Bruna Vieira.

About the Author

Apaixonada por quadrinhos, animações e tudo relacionado à cultura pop. Escritora ávida e leitora mais ávida ainda. Sejam bem-vindos, mas não se sintam em casa. Sejam educados, por favor!

%d blogueiros gostam disto: