“Precisamos falar de 13 Reasons Why e de tudo que esta série representa”
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“Eu não sabia que era o começo do fim.”

 

Disponibilizada no serviço de streaming no dia 31 de março de 2017, a mais nova série original da Netflix adapta o livro homônimo de Jay Asher, 13 Reasons Why (Os 13 Porquês).

A série traz a história de Clay Jensen (Dylan Minnette) que ao chegar da escola, encontra uma caixa de sapato contendo um mapa e sete fitas cassetes. Nelas, Hannah Baker (Katherine Langford) narra as 13 razões que a levaram a tomar a decisão que mudara não somente a sua vida, como a de todos ao seu redor. As regras são simples: você ouve e passa adiante, caso contrário, uma cópia será exposta para todos saberem a verdade.

“ O que você fez?”

 

Não há como me aprofundar mais no roteiro, pois, assim como no livro, a beleza da obra está em cada descoberta.

No decorrer dos 13 episódios vemos a desconstrução do personagem de Clay, sua angústia pela garota que ele gosta ter cometido suicídio e sua paranoia pelo motivo de estar numa das fitas. Paralelo a isso temos as pessoas que as ouviram antes de Clay, e do que são capazes de fazer para que ele mantenha os segredos que elas contém em silêncio.

“Uma sombra crescendo lentamente.”

Série vs Livro

 

Não há como escrever essa crítica sem comparar a série com o livro. Antes de tudo ressalto que a obra de Jay Asher deveria ser didática nas escolas, os personagens, suas ações e consequências trazem vários temas à tona, e seria muito interessante trabalhar esse assunto em um ambiente escolar.

Há bastante diferença entre a série e o livro, mas nada revoltante, aliás a série consegue ir muito mais além: se aprofundando nos personagens secundários da trama, principalmente nos pais da Hannah, já que no livro o foco é nela e no Clay.

Outro aspecto interessante de ressaltar é de como Hannah Baker é viva na história, o leitor e telespectador não quer acreditar que ela tenha se suicidado, a impressão é de que ela aparecerá, sabe? Além disso, a narração dela na série traz as passagens mais marcantes do livro e os títulos dos episódios são os mesmos dos capítulos do exemplar.

O que achei brilhante foi o modo que conseguiram manter a narrativa da obra, no livro temos a Hannah contando os motivos e a reação de Clay ao escuta-los, e na série temos isso também, mas são adicionados fashbacks tanto de Clay lembrando ou imaginando o que se passava com a Hannah, mostra ele e os personagens que estão (ou não) nas fitas indo a escola e passando por problemas familiares, além de claro, conviver com a culpa. A dor dos pais de Hannah e a luta por justiça, por descobrir o que levou a filha deles a se matar, além das questões escolares, se algo ou alguém poderia tê-la ajudado antes de ser tarde demais são evidenciadas na série.

Então a forma que construíram os episódios foram muito próximas às cenas do livro, e isso me fez sentir como se estivesse relendo a obra, o carrossel de emoções e reflexões foram maiores na série do que quando eu li Os 13 Porquês.

 

Infelizmente, mesmo se tratando de uma ficção, os temas abordados não são algo fora do comum. Não há rosas ou alívio cômico, a série traz o drama, o suspense e tudo o que acontece com Hannah da forma mais crua e brutal possível, com atores que captaram a essência de cada personagem, enfim, fizeram uma adaptação justa.

 

Precisamos falar sobre bullying e cyberbullying

Os 13 Porquês explora sobre o bullying e suas consequências, tanto para a vítima quanto para o agressor, e vale ressaltar que a série não tenta suavizar ou diminuir o grau da culpa do mesmo, sendo homem ou mulher. Entretanto, temos personagens que tentam fazê-lo, tanto porque sempre teremos pessoas assim, certo?

Muitos estudantes passam por esse problema, e além de sofrerem bullying na escola, ao chegar em casa este continua pelas mídias sociais (cyberbullying). Então o efeito bola de neve acontece e quem sofre desse mal consegue enxergar apenas duas opções quando tudo atinge o ápice: reagir ou desistir.

 

Quantas vezes não lemos notícias de pessoas que entraram atirando em escolas? Ou quantas meninas (os) ao serem estupradas (os) e/ou terem fotos e vídeos vazados na internet, acabam ceifando suas vidas por não enxergarem uma saída?

Conforme a sociedade e a tecnologia evoluem, o bullying piora. E o mais importante de tudo e que a série escancara é de como os adultos tendem a banalizar este fato. Adolescentes e jovens ao enfrentar muitos problemas pensam que estes não irão melhorar, que nunca nada dará certo novamente e ficam receosos em falar com algum familiar sobre o que está acontecendo. E a série explora bem isso, assim como o que poderia ser feito para que o resultado fosse diferente.

Chegamos também ao termo tecnologia alienada, onde mostra como a internet gerou uma sociedade de perseguidores, como todos estamos seguindo alguém, vendo o que o outro está fazendo online. Evidenciando assim a ilusão de privacidade.

Bullying, depressão, abuso sexual e suicídio são alguns dos temas que 13 Reasons Why aborda, e há tantas outras questões sociais nessa série, que não há como escrever sobre tudo. Então convido você a assistir/ler essa obra incrível e a refletir sobre o que ela traz. Mas antes prepare os lencinhos, ok?

A série não termina com todos os pontos fechados, há algumas pontas soltas e algo muito chocante, que penso que poderá ser o foco de uma segunda temporada – se houver, claro – #torcendo.

A fotografia e a trilha sonora possuem um visual retrô e se adequam a série perfeitamente.

“Todos querem conversar.

Ninguém quer fazer nada.”

Beyond the Reasons (Não assista antes da série, pois contém spoiler)

Há um pequeno vídeo de bastidores intitulado Beyond the Reasons que traz todo o elenco, produtores, psicólogos, psiquiatras, além do próprio escritor comentando sobre as razões que levaram Hannah a ceifar a sua vida. O vídeo de 30 minutos também retrata o quanto é importante esse tema ser exposto na mídia, de forma que mostre a verdade aos jovens e adolescentes. Neste é explicado o objetivo da série de tentar ajudar de alguma forma, gerar debates e discussões sobre o tema e fazer um alerta para as famílias e amigos próximos de alguém que está passando por algo do tipo.

Fora criado também o site www.13reasonswhy.info que contém telefones e e-mails de vários países para ajudar em momentos de crise.

No Brasil há o CVV (Centro de Valorização da Vida)

Telefone: 141

E-mail, chat e Skype no website http://cvv.org.br/

 

“Como sociedade temos a tendência de fugir destes temas complicados. Isto é um problema e precisa ser abordado.”

 

E segundo a PublishNews, a Editora Ática irá lançar uma nova edição do livro que contará com a capa inspirada no pôster da série. Não há previsão de lançamento.

 

Nem preciso escrever o quanto essa série deve ser assistida, certo?

 

 

 

About the Author

Licenciada em Letras, é tradutora, copidesque, revisora e colaboradora da área de livros do Oracullo. Viciada em Netflix, doramas e livros.